As grandes cidades estão hoje repletas de locais das assim chamadas Unidades ou Centros de Medicina Diagnóstica.
Formado há bastante tempo, acumulo uma experiência significativa no exercício da medicina, o que me permite várias comparações na linha do tempo.
Assisti momentos de glória da medicina, momentos de fracasso, tratamentos revolucionários para algumas doenças ou situações especiais, que após alguns anos foram questionados e depois suspensos, medicamentos milagrosos que se tornaram indutores de outras doenças, enfim situações que nada mais são do que a própria evolução da Ciência Médica e cada momento teve sua explicação, sempre apoiada no bom senso e com o objetivo de servir ao paciente. Da mesma forma, nunca vi nenhuma tentativa consistente de modificar a semiologia médica.
Entretanto, esta nova especialidade que foi criada a “Medicina Diagnóstica” é um equívoco gigantesco.
Pessoalmente tive a oportunidade de questionar esta denominação, em duas ou três destas empresas, inclusive com a literatura em mãos, mas sem sucesso e por isso resolvi escrever.
O diagnóstico médico faz parte indissolúvel da consulta médica. Todos nós aprendemos na escola, na disciplina de Semiologia toda a composição da consulta médica: a queixa e duração, a história pregressa da moléstia atual, etc até chegarmos ao Diagnóstico ou Hipótese Diagnóstica. O paciente não deve levar ao consultório médico o diagnóstico, mas sim o sintoma, ou seja, ele tem dor de cabeça, frio, mal-estar, náuseas, vômitos e o diagnóstico poderá ser por exemplo Meningite.
O paciente não pode dizer que sente ou que tem Meningite, pois o diagnóstico é função do médico, a partir de sintomas e sinais, após exame físico elaborar um diagnóstico e sugerir um tratamento. A partir do diagnóstico o médico poderá lançar mão de exames complementares para confirmar ou não a sua suspeita, solicitando uma análise clínica, um exame de imagem, um exame endoscópico etc...Antigamente, cada um destes exames estava localizado em lugares fisicamente diferentes o que trazia desconforto ao paciente ter que ir a dois ou três lugares diferentes para fazer seus exames no laboratório, no instituto de imagem, no serviço de endoscopia etc...
Baseado neste conceito e necessidade foram criados os centros de apoio diagnóstico, que conseguem reunir num só lugar todas as necessidades do paciente. É evidente que esta união faz sentido em todos os aspectos não só na visão do paciente quanto do negócio em si, tanto que é fácil medir o seu sucesso.
O que causa estranheza é o nome inventado, especialmente porque as pessoas que o inventaram são médicos inteligentes e competentes. Imaginem a seguinte cena: um cidadão entra do FULANO DE TAL MEDICINA DIAGNÓSTICA e diz para a atendente:
“Eu gostaria de fazer exames para saber porque eu tenho dor de cabeça e febre todos os dias”
“Desculpe, mas o senhor deve procurar um médico”
“Mas aí na porta está escrito que vocês fazem Medicina Diagnóstica!”
“Sim, mas nós fazemos os exames que o seu médico pedir”
“Ah! Então agora ficou claro, vocês auxiliam o meu médico a fazer o diagnóstico”
“Exatamente, é isto mesmo”
“Então desculpe, o erro está no nome que vocês puseram aí fora, vocês deveriam se chamar”:
FULANO DE TAL AUXÍLIO AO DIAGNÓSTICO, ou.
FULANO DE TAL APOIO AO DIAGNÓSTICO, ou
FULANO DE TAL COMPLEMENTAÇÃO AO DIAGNÓSTICO, ou enfim qualquer coisa menos
MEDICINA DIAGNÓSTICA.
O único detalhe é que o FULANO DE TAL na verdade é um nome consagrado na medicina e como tal se acha no direito de exercer uma Medicina que não existe, nunca existiu e nunca existirá.
Casualmente ontem, feriado na cidade de São Paulo, andando por aí passei por uma destas Unidades e me chamou atenção uma placa novinha onde estava escrito:
FULANO DE TAL MEDICINA E SAÚDE.
Talvez seja o início do fim.
Parabéns.