Por outro lado, a imagem do plano de fundo foi feita pela Curiosity Mars Science Laboratory em 08 de setembro de 2012 no 33º dia após o pouso na superfície de Marte observando-se o solo marciano como jamais foi visto. E também não é bobagem...
Image credit: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Acredite se quiser, você é o 405

Acreditação.
Esta é uma palavra que está circulando em todos os hospitais das nossas grandes cidades.
Existe uma idéia em fase de formação que o processo de Acreditação (ou Certificação) de um Hospital promove melhorias em toda sua infra-estrutura, e em todas as áreas da Instituição inclusive nos seus processos clínicos e administrativos, como por exemplo, a avaliação da segurança do ambiente hospitalar, manutenção de equipamentos, treinamento dos seus médicos e funcionários, gerenciamento e segurança das informações, análise crítica dos indicadores de qualidade, entre outros.
Mas o trabalho não termina com a certificação. Pelo contrário, os esforços continuam para manter o padrão de qualidade conquistado. O Hospital segue mobilizado para manter a excelência assistencial e organizacional, a fim de buscar a re-acreditação hospitalar que se dá a cada tempo diferente, dependendo da empresa de acreditação utilizada.
O que não aparece de uma forma clara e explícita em todo este projeto é a consciência de Humanização do hospital. Não existe nenhum processo descrito em qualquer empresa que se propõe à qualidade de um hospital de torná-lo mais humano ou simplesmente Humano.
Nós pacientes quando chegamos a um hospital passamos a ser um número que geralmente é o nosso registro ou o número da passagem no Hospital, eventualmente poderá ser o CPF ou qualquer outro adotado. Quando internados passamos a ser conhecidos como o “paciente do 405” ou pior ainda deixam de lado o paciente e viramos o númeral mais simples possível “405”.
Pode chamar o “405”. Vou operar o “405”. Quem vai dar anestesia no “405”? O “405” ainda não urinou. O “405” Não gostou da comida. O acompanhante do “405” é um chato. O “405” está melhor. Tire os pontos do “405”. O “405” vai embora amanhã. O “405” foi embora e preciso fechar a sua conta.
Eventualmente o “405” antes de ser internado levou seu automóvel para uma revisão ou um conserto qualquer em uma oficina autorizada que seguramente após a realização do serviço vai entrar em contato para saber com foi atendido, se gostou, quais as reclamações, o que deu certo, o que deu errado etc. Enfim será feito um trabalho para entender como foi o atendimento do seu automóvel. Isto acontece porque a oficina tem qualidade reconhecida sabe que você se importa com seu automóvel e somente vai voltar se foi bem atendido, e repare que praticamente não sabemos quem são as pessoas que trataram do seu carro.
A chance de você receber um telefonema equivalente do Hospital onde você esteve como o “405” é zero.
E porque isto acontece? Porque você é diferente do seu automóvel?
O seu automóvel tem nome, cor, data de nascimento, número de registro, como você toma banho, recebe combustível, geralmente tem seguro e oficina do convênio, tem valor publicado diariamente nos jornais e outras tantas. A diferença é que você é um Ser complexo com definições biológicas, sociais e de consciência, e conseqüentemente você pensa, raciocina e tem sentidos, o que faz com que você seja um Ser Humano.
E o respeito pelo Ser Humano está em desuso, não está mais sendo reclamado e também não faz parte da cultura das pessoas e do próprio hospital, que passou a ver você como o “negócio dele” e nada mais.
Ou seja o Hospital tem qualidade, está acreditado, mas não tem Humanidade.
Aliás o pouco que se vê de Humanidade nos hospitais vem de fora, praticado por empresas do terceiro setor, com serviços brilhantes que estão auxiliando o tratamento, geralmente focado nas crianças ou em paciente com doenças graves.
Mas o terceiro setor não tem a cara do hospital e portanto nunca estará se identificando com a Instituição e sim com o paciente e por isto eles fazem Humanização. E estas pessoas reunidas com os nomes mais diversos possíveis porém com o objetivo de levar Humanidade às pessoas fragilizadas e necessitadas, antigamente se orgulhavam de estar no Hospital A, B ou C, e hoje são estes hospitais que se orgulham de tê-los dentro de si.
Os gestores não percebem que estão terceirizando a humanização do hospital, como um departamento qualquer, que precisa dar lucro ou pelo menos não ser deficitário. Modelo medíocre, de gestão medíocre, saída da cabeça de gestores medíocres, que está se disseminando pelos nossos hospitais, inclusive nos assim chamados como de primeira linha.
Nada disto tem a ver com nível social, riqueza ou pobreza, e eu pessoalmente vivi os momentos mais carregados de alegria, emoção e satisfação da minha vida profissional de médico dentro de um hospital público, envolvendo pessoas extremamente simples.
Por tudo que foi dito o diálogo abaixo transcrito pode se dar em um Hospital de altíssima qualidade, reconhecido e acreditado como tal e povoado com profissionais qualificados para suas funções porém sem nenhum pingo de Humanidade:
“Bom dia. É da recepção?
Eu gostaria de falar com alguém que me desse informações sobre um paciente.
Queria saber se certa pessoa está melhor ou piorou.
Qual o registro do paciente?
O registro eu não sei, mas o seu nome é Alberto e está no quarto 405
Ah bom! notícias do 405.
Um momentinho, vou transferir a ligação para o setor de enfermagem.
Bom dia, sou a enfermeira encarregada. O que deseja?
Gostaria de saber as condições clínicas do paciente Alberto, do quarto 405, por favor!
Um minuto, vou localizar o médico de plantão.
Aqui é o médico plantonista. Em que posso ajudar?
Olá, doutor. Precisaria que alguém me informasse sobre a saúde de Alberto, que está internado há várias semanas no quarto 405.
Ok, meu senhor, vou consultar o prontuário do paciente. Um instante só, um minuto! Aqui está, ele se alimentou bem hoje, a pressão arterial e o pulso estão estáveis, responde bem à medicação prescrita e vai ser retirado do monitor cardíaco até amanhã. Continuando assim, o médico responsável assinará a alta em três dias.
Ah, graças a Deus! Notícia maravilhosa! Que alegria!
Pelo seu entusiasmo, deve ser alguém muito próximo, certamente da família!
Não, sou o próprio Alberto telefonando aqui do 405. É que todo mundo entra e sai deste quarto e ninguém me diz p .... nenhuma. Eu só queria saber como estou!
Obrigado".

Deixo aqui um desafio para aqueles que acham que estou equivocado, ou exagerei no tamanho da crítica.
Não vale depoimentos, elogios ou agradecimentos isolados, eu estou falando de Indicadores de Humanidade.
Tomara que eu esteja enganado, vamos, diga lá!.

2 comentários:

Silvano Vilela disse...

Dr. Leonardo, estive conversando com um colega no hospital e falávamos exatamente isso, o hospital não é humano, por vários problemas, inclusive porque os diretores ou proprietários não são humanos com seus trabalhadores da saúde e não se importam em mudar isso, mas você foi muito feliz nas colocações, principalmente do "405", lá no hospital é o do "21-B"...

Anunciação disse...

Está coberto de razão.