Por outro lado, a imagem do plano de fundo foi feita pela Curiosity Mars Science Laboratory em 08 de setembro de 2012 no 33º dia após o pouso na superfície de Marte observando-se o solo marciano como jamais foi visto. E também não é bobagem...
Image credit: NASA/JPL-Caltech/MSSS.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Catástrofes e o coração

Várias pesquisas médicas detectaram um significativo aumento de problemas cardíacos agudos após a ocorrência de eventos catastróficos, sejam atentados terroristas, guerras ou fenômenos da natureza. Na verdade não é que a catástrofe em si seja a responsável pela morte, mas sim o fato de que estes pacientes já estavam num limite crítico, e qualquer evento que aumentasse seus níveis de adrenalina poderia provocar a morte. Costumo dizer que estas pessoas morreram em conseqüência da “gota d’agua”, pois uma doença pré existente estava latente, assintomática ou muito pouco sintomática e no primeiro evento regado à uma boa dose de emoção , que no caso pode ser algo bom ou ruim, advém a morte súbita, seja ela por oclusão coronariana, arritmia cardíaca, ou até mesmo de origem cérebro vascular, tendo porém o stress agudo, como o fator desencadeante do óbito.
O exemplo mais claro desta situação é do cidadão que morre num campo de futebol. A emoção, da derrota ou da vitória foi a gota d’agua para alguém que foi ao estádio aparentemente em boas condições de saúde e não suportou assistir a vitória ou a derrota de seu time do coração, tão do coração que o matou...
O atentado terrorista ao World Trade Center, o furacão Katrina em New Orleans e as inundações em Santa Catarina são exemplos de grandes catástrofes que têm estimulado interesse na compreensão das conseqüências para a saúde geral e cardiovascular.
Potenciais efeitos causados pelo estresse agudo são atualmente estudados, embora não haja dados suficientes disponíveis sobre terremotos, enchentes, terrorismo e outros. Os efeitos psicológicos podem durar semanas, se não meses, e, às vezes, deixam uma seqüela permanente.
Desde os ataques ao World Trade Center foram associados aumento do stress pós-traumático e problemas cardiovasculares. Existem conhecidos efeitos fisiopatológicos do estresse agudo e a indução ou potencialização de arritmias cardíacas; indução de isquemia miocárdica em pacientes suscetíveis subjacentes à doença arterial coronariana; aumento da pressão arterial, precipitação de piora da função endotelial e/ou lesão endotelial, anormalidade da coagulação; e hemoconcentração. Esses representam todas as áreas importantes para estudos, após a ocorrência de catástrofes.
Com base nos atuais dados epidemiológicos e fisiopatológicos relativos a efeitos cardíacos agudos pós estresse, faz-se necessário o acompanhamento de perto dos pacientes de alto risco cardíaco após esses eventos. Recentes estudos demonstraram um aumento de infarto do miocárdio (IAM) no momento e semanas após catástrofes naturais. O papel do estresse crônico na patogênese do IAM é ainda mal compreendido nessa ocasião.
Os dados pós Katrina revelaram que ocorreu perda de emprego e de seguros, diminuiu o acesso à saúde preventiva e aumentou a incidência de IAM. Além disso, parece que o estresse leva a um grave transtorno psicossocial com perda de emprego, de seus lares e, com isso, aumento do abuso de álcool, drogas, tabagismo e abandono de terapêutica.
A Sociedade Brasileira de Cardiologia está analisando o aumento na incidência de IAM e de morte súbita após as enchentes de Santa Catarina, baseada exatamente nos dados pós-Katrina, que mostraram número três vezes maior de ocorrências, dois anos após o desastre, o que representou uma mudança significativa na condição de saúde da população geral. Um maior estudo sobre os efeitos do estresse crônico faz-se necessário e conta com o apoio integral dos nossos dirigentes da sociedade.

Parte deste material foi publicado no Jornal da SBC nº 94 Jul/Ago 2009

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